Candidato do Avante foi o último presidenciável entrevistado pelos jornais O GLOBO e Valor e a rádio CBN
Augusto Cury talvez tenha feito o diagnóstico mais preciso entre os candidatos que passaram pela sabatina dos jornais O GLOBO e Valor e da rádio CBN : o brasileiro está cansado de viver numa eleição permanente. O eleitor está procurando alguém que baixe o volume.
Cury entendeu essa demanda. Disse que “adversários não são inimigos”, que “a beleza da democracia está na divergência” e resumiu sua tentativa de escapar dos rótulos tradicionais dizendo ter “mente capitalista e coração social”. Fofo.
O Brasil precisa mesmo de alguma descompressão. Só que reconhecer a doença é a primeira parte da consulta. Quem disputa a Presidência precisa mostrar o remédio, explicar a dose e assumir os efeitos colaterais.
Foi quando a sabatina chegou aí que Cury teve mais dificuldade.
Cury mostrou ter ideias. Quer mexer no Supremo, integrar melhor as forças de segurança e mudar a relação entre Executivo e Congresso. O problema não é falta de proposta. É a distância que ainda aparece entre a convicção e a execução.
No STF, por exemplo, defende reduzir de 11 para nove ministros. Perguntado por que nove, citou experiências internacionais e, pouco depois, admitiu que “pode ser 11”. A questão nem é saber se o número ideal é nove ou 11. É perceber que a vontade de reformar parece mais madura do que a reforma.
Na economia ocorreu algo parecido. Cury diz que será preciso “cortar na carne”, mas, quando mostra a tesoura, começa por medidas populares e bastante cosméticas: despesas do Palácio da Alvorada, cargos comissionados, redução de ministérios. São cortes que rendem manchete e sinalizam austeridade, mas estão longe de responder ao tamanho do ajuste que ele próprio descreve. Quando a conversa chega às despesas capazes de realmente mudar a conta, aparecem auditorias, eficiência e redução de emendas parlamentares, sem dizer quanto cada medida economizaria. A disposição para cortar ficou clara. O corte que muda a trajetória do orçamento, ainda não.
A maior dificuldade apareceu quando não havia como responder apenas com uma boa intenção. Houve tentativa de golpe no 8 de Janeiro? Bolsonaro deveria ser anistiado? Cury preferiu convocar juristas para rever os processos. Pressionado, disse suspeitar que houve tentativa de golpe, mas não fechou posição.
Consultar especialistas é uma qualidade. Presidente que acredita saber tudo costuma aprender rapidamente que não sabe. Só que o especialista entrega parecer. A caneta continua na mão do presidente.
Essa talvez seja a fronteira que Cury ainda precise atravessar. Despolarização não significa não escolher. O eleitor não está necessariamente procurando um candidato sem posições. Está procurando alguém capaz de defender posições sem transformar metade do país em inimigo.








